M(eu) banco

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Eu já tinha caminhado 2 quilometros e começava a me cansar. Passei pelo meu banco preferido da avenida. O lugar do mundo todo que eu me sentia melhor.

Ele sempre estava lá. De madeira, no meio das duas árvores e com um parafuso cinza a mostra. Parece exagero mas ele me transformou.

Estava ali, só pra mim. E sempre deixou claro que estava disponível. Nunca duvidei. Nunca precisei.

“Quero andar mais”, pensei. E na verdade, eu nem queria.  Só queria lembrar um pouco de mim. Só precisava amadurecer alguns sentimentos.
Decidi ir até a esquina e só passar um tempo no meu banco na volta. Confesso que por todo o caminho eu pensava nele. Em como seria bom eu ter ficado ali, em como eu amava seus detalhes. Continuei no meu plano: andar mais um pouco, mesmo sem querer. Louca pra voltar.

Meus joelhos começaram a doer. Muito. E cada vez eu me afastava mais do meu banco. Derrubei uma lágrima. De saudade, com vontade de fazer diferente. Parecia que meu banco me fazia sentir dor. Estava difícil voltar. Eu não estava aguentando. Eu não estava bancando nada.

Agora minha barriga também doía. Derrubei outra lágrima.

Comecei a andar mais rápido, quase correr, de volta pro meu banco. Não chegava nunca.

Eu deveria ter lutado por ele. Eu banco?

Eu não queria ter ido tão longe. Eu sempre soube. Todo mundo avisou. E nessa altura do campeonato e da minha caminhada, eu já tinha quebrado muita coisa e machucado minhas articulações (já cicatrizadas).

Voltei, quase exausta. Aliviada. Sedenta pra sentar nele. E meu banco não estava mais disponível. Eu esqueci de lembrar que ele precisava seguir também.
Quatro crianças estavam mudando ele de lugar para montar parte da casinha que fantasiaram. Haviam colocado uma fita crepe no parafuso cinza que eu amava e pintado de giz vermelho, quatro lascas do meu banco.

Não tinha mais espaço pra mim. Ele se transformou e estava transformando as crianças também.

Mais lágrimas caíram.
Eu banco?

Pensei em não desistir e voltar amanhã cedo.

Quem é que sabe?

Eu só queria sentar por ali, mais uma vez. Sem me machucar com as farpas que ele está soltando.
E quem é que sabe?
Ninguém sabe se banca. Nem o meu banco.


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